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23 Janeiro 2026

SerE+: projeto arranca na Serra da Estrela para unir ciência e comunidades no restauro e valorização dos serviços da natureza

SerE+: projeto arranca na Serra da Estrela para unir ciência e comunidades no restauro e valorização dos serviços da natureza

A neblina envolve a floresta, revelando a beleza serena e húmida das paisagens de altitude da Serra da Estrela. Fotografia Pedro Alves/Palombar.

O projeto SerE+ - Rede de Áreas de Aceleração de Serviços dos Ecossistemas na Serra da Estrela arrancou no terreno nos dias 14 e 15 de janeiro, com a realização da primeira reunião de parceiros e o seu lançamento público, que tiveram lugar no Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE), em Seia. Nesses dias, nas serranias de onde ainda espreitava o branco, iniciou-se um trabalho que promete aproximar a ciência à valorização territorial e ao restauro ambiental de base comunitária, beneficiando as pessoas e a natureza.

Reunião de parceiros: consolidar a estratégia e as metodologias

No dia 14 de janeiro, os parceiros do projeto reuniram-se no CISE para uma jornada de trabalho intensivo que consolidou a estratégia a seguir e as metodologias a aplicar. Estiveram presentes representantes do consórcio responsável pela implementação do SerE+: Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural (entidade coordenadora); o Município de Seia, representado pelo CISE; o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CE3C) e a Agencia Estatal Consejo Superior de Investigaciones Científicas M.P. (CSIC), de Espanha, representada pela Estação Biológica de Doñana.

Esta reunião técnica, reservada aos parceiros, teve como objetivo consolidar a estratégia metodológica que irá guiar as primeiras fases do projeto. O foco foi a partilha de informações e perceções sobre os critérios de priorização de áreas a selecionar, a definição da base de referência para quantificação do potencial de restauro ecológico e os métodos de mapeamento dos Serviços dos Ecossistemas (SE), incluindo a definição das variáveis socioeconómicas e ambientais a considerar. A integração dos mapas quantitativos de Serviços dos Ecossistemas nos modelos de priorização espacial permitirá identificar a futura rede de Áreas de Aceleração de Serviços dos Ecossistemas (AASE).

O resultado final deste trabalho será materializado numa ferramenta prática e pública: uma plataforma Web SIG de acesso aberto, com dados científicos robustos, os quais estarão ao dispor das populações, dos responsáveis pela gestão e ordenamento do território e dos decisores políticos a nível regional, nacional e ibérico.

O mapeamento e a auscultação da comunidade: projeto organiza oficinas colaborativas

Um dos aspetos mais desafiadores da estratégia traçada é o processo colaborativo de construção de todo este conhecimento. Para garantir que os mapas refletem a realidade do território, o saber e as perceções das suas comunidades, o SerE+ organizará, entre março e junho de 2026, três oficinas colaborativas.

Estas sessões reunirão cidadãos cuja vida pessoal, profissional, social e/ou económica está intrinsecamente ligada à paisagem serrana. O seu conhecimento será fundamental para ajustar os modelos à região da Serra da Estrela, criando uma ferramenta que seja científica e socialmente relevante, valorizando as perceções da comunidade sobre os serviços dos ecossistemas, em concreto no contexto da sua vida e atividade profissional.

Parceiros do consórcio SerE+ trabalharam em conjunto no Centro de Interpretação da Serra da Estrela para consolidar a estratégia do projeto. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


Partilhar expectativas e promover parcerias direcionadas

Após uma manhã profícua de debate e imersão teórica, os parceiros tiveram oportunidade de se concentrar no território, dirigindo-se a São Romão, Seia, para um almoço rodeado das suas verdejantes montanhas, no Santuário de Nossa Senhora do Desterro, junto à área-piloto onde o projeto prevê desenvolver um conjunto de ações de restauro ambiental. Num restaurante escavado na própria rocha granítica da Estrela, a partilha de experiências e expectativas teve um forte impacto no fortalecimento do compromisso da equipa, em cooperar ativamente na conservação do património natural, social e económico da Serra da Estrela.

A Serra da Estrela, detentora de uma riqueza natural ímpar, é um território sob uma pressão imensa. A conjugação das alterações climáticas, com incêndios devastadores, secas severas e o decréscimo da neve, ameaça o equilíbrio dos ecossistemas de uma forma acelerada. O abandono rural, a propagação de espécies invasoras, a construção de grandes infraestruturas e o impacto de um turismo desordenado agravam ainda mais a vulnerabilidade da região e comprometem o frágil equilíbrio dos ecossistemas da montanha, a sua biodiversidade e os serviços essenciais que prestam para a subsistência das comunidades neste território, o bem-estar e saúde das populações e para a economia regional.

Foi precisamente esta urgência que ecoou nas conversas durante a tarde, reforçando a convicção de que o SerE+ surge como uma resposta que se baseia na ciência e na participação local, para construção de uma serra mais resiliente e como uma via alternativa de progresso que coloca a conservação da natureza ao lado do desenvolvimento regional, com base em princípios de sustentabilidade.

Abundantes cursos de água serpenteiam pelas encostas serranas, um serviço dos ecossistemas vital que depende da formação de gelo e da neve para persistir nos meses mais secos. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


Quando a ciência calça as botas e desbrava a região

A tarde do dia 14 foi dedicada à conexão com o território. Os parceiros deslocaram-se à Mata do Desterro, um bosque ribeirinho que acompanha as margens acidentadas do rio Alva. Nestas encostas, identificaram-se as fragilidades do território que irão ser o foco de atuação no ensaio piloto do projeto SerE+, iniciando-se também a planificação das ações que irão ser executadas para requalificação da área.

O projeto SerE+ criará um laboratório vivo, onde, ao longo dos próximos três anos, serão implementadas ações de restauro ecológico, como a plantação de vegetação nativa, o controlo de invasoras por meio de técnicas diversificadas, a abertura de matos e sementeiras, a recuperação de pontos de água, a criação de uma escada de peixes, inoculação microbiológica de solos e a instalação de abrigos para fauna.

É também na Mata do Desterro, que ladeia o Museu Natural da Eletricidade, que irá ser estabelecido um percurso pedestre temático sobre os Serviços dos Ecossistemas, aproveitando um trilho já existente para o dinamizar de forma integrada nas temáticas do projeto. Este caminho interpretativo será inaugurado num evento público no final do projeto, em 2028, tendo como missão levar a comunidade e os visitantes a explorarem de forma imersiva o valor da natureza que demasiadas vezes nos passa despercebido.

Na Mata do Desterro, que contorna a margem direita do rio Alva, já existe um pequeno percurso pedestre que sinaliza as belezas naturais da paisagem. Uma das ações do projeto SerE+ consiste na implementação de um novo percurso pedestre, exclusivamente dedicado ao entendimento dos serviços de ecossistema prestados pela Serra da Estrela. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


Apresentação pública do projeto SerE+: evento reuniu cerca de 90 pessoas de vários setores

No dia 15 de janeiro, o CISE foi anfitrião do evento de lançamento público do projeto SerE+. A sessão foi muito participada e envolveu cerca de 90 pessoas de vários setores e áreas, entre as quais a população local, representantes da sociedade civil, organizações não-governamentais, autarquias, entidades governamentais como o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, universidades, empresas e associações do setor florestal e certificação, entre outros atores locais interessados e o público em geral. Através de vários painéis, os diferentes parceiros apresentaram os objetivos, a metodologia e o caminho a percorrer, promovendo uma conversa aberta sobre as iniciativas futuras e convidando à participação cívica na construção do projeto.

Pedro Horta, coordenador do projeto e técnico de investigação e conservação da Palombar, apresentou a visão e os objetivos do SerE+ para os próximos três anos de trabalho. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


O programa refletiu a intenção de comunicar de forma transparente os objetivos e ações do projeto, evoluindo de uma apresentação geral para uma exploração temática aprofundada. Após a abertura, a apresentação do projeto por Pedro Horta, técnico de investigação e conservação da Palombar e coordenador do SerE+, estabeleceu o enquadramento e a ambição coletiva.

Seguiram-se as intervenções do investigador Virgílio Hermoso, da Estação Biológica de Doñana, da Agencia Estatal Consejo Superior de Investigaciones Científicas M.P., e do professor e investigador Hugo Rebelo, do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que detalharam as abordagens que serão aplicadas no mapeamento e priorização e da rede de AASE.

A segunda parte das apresentações trouxe o foco para a realidade e o valor natural da Serra da Estrela, conectando a ciência ao território. José Conde, técnico superior do CISE, abordou a crítica e sensível questão dos recursos hídricos, enquanto Alexandre Silva, engenheiro florestal do CISE, destacou a riqueza e as particularidades da flora única da montanha mais alta de Portugal Continental, bem como os seus benefícios para as comunidades, por aplicação, por exemplo, de compostos ao nível da farmacêutica.

Por fim, José Pereira, presidente da Palombar, relembrou a história da associação no restauro ambiental interligado à salvaguarda da identidade territorial.

Pedro Horta (Palombar), José Conde (CISE), Hugo Rebelo (CE3C) e Virgílio Hermoso (não visível na imagem), durante as apresentações do evento de lançamento. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


“O propósito que nos guia é entender o que faz sentido quer para a natureza, quer para a população local.”
- Pedro Horta, técnico de investigação e conservação da Palombar e coordenador do projeto SerE+

“O CISE, enquanto serviço disponibilizado pelo Município de Seia, terá um papel essencial na ligação entre a equipa científica do projeto e a comunidade local.
- José Conde, técnico superior do CISE

“Os processos co-criativos que nos permitem utilizar o conhecimento científico para melhorar a biodiversidade e o tecido socioeconómico local são uma oportunidade brutal que temos neste projeto.”

- Hugo Rebelo, professor e investigador no Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

“O projeto pretende ajudar a encontrar lugares prioritários para restaurar habitats que apoiem a conservação da biodiversidade e a valorização dos serviços de ecossistemas.”
- Virgílio Hermoso, investigador na Estação Biológica de Doñana, da Agencia Estatal Consejo Superior de Investigaciones Científicas M.P. (CSIC)

O público interagiu com os oradores, num momento de partilha crucial entre os parceiros do projeto e vários agentes dinamizadores da paisagem da Serra da Estrela. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


O evento de lançamento do projeto SerE+ marcou o início de uma caminhada feita com a ciência e a comunidade a par, transformando o conhecimento científico e local em ferramentas práticas de gestão territorial.

A missão do projeto é contribuir para a conservação e o restauro ambiental, capacitando o valor social e regenerativo da região. A visão que nos guia é a procura por uma resiliência paisagística capaz de honrar o património natural e social da Serra da Estrela e as suas futuras gerações.

O auditório do CISE ficou cheio, refletindo o forte interesse e curiosidade da comunidade no arranque do projeto SerE+. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


Sobre o projeto

O projeto SerE+ - Rede de Áreas de Aceleração de Serviços dos Ecossistemas na Serra da Estrela procura criar ferramentas integradoras e localmente adaptadas capazes de apoiar o restauro e a conservação dos serviços de ecossistema da região serrana, identificando os locais com maior potencial de conservação e de potenciação desses serviços, promovendo o equilíbrio com as atividades socioeconómicas e propondo medidas de conservação e restauro concretas para o território.

É coordenado pela Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural e desenvolvido em parceria com o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o Município de Seia, através do Centro de Interpretação da Serra da Estrela (CISE) e a Agencia Estatal Consejo Superior de Investigaciones Científicas M.P., através da Estação Biológica de Doñana, em Espanha.

Com a duração de três anos, o SerE+ é apoiado pelo Programa Promove da Fundação “la Caixa”, em colaboração com o BPI e com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). A sua intervenção abrange a área total dos seis municípios que integram o Parque Natural da Serra da Estrela.