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19 Janeiro 2026

Quase 20 milhafres-reais encontrados mortos em caso suspeito de envenenamento em Almeida

Quase 20 milhafres-reais encontrados mortos em caso suspeito de envenenamento em Almeida

Milhafre-real morto em caso suspeito de envenenamento, detetado no âmbito do projeto Sentinelas, da Palombar, em 2023. Fotografia Palombar.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a Guarda Nacional Republicana (GNR) estão a investigar a morte de 17 milhafres-reais (Milvus milvus) em Leomil, no concelho de Almeida. O crime de envenenamento surge como uma das causas mais prováveis que provocou a morte das aves. Se a investigação concluir que houve envenenamento, poderá tratar-se do caso mais grave alguma vez registado em Portugal, no que respeita ao número de indivíduos desta espécie mortos.

Recolhas de prova num caso suspeito de envenenamento detetado pela Palombar. Fotografia Palombar.

Caso em investigação

O ICNF recebeu, no dia 12 de janeiro, uma denúncia relacionada com a morte de aves selvagens em Leomil, no concelho de Almeida. Seguindo o protocolo para estas situações, foi mobilizado o órgão de polícia criminal competente, a GNR, e foi feita a prospeção e recolha de evidências para proceder com a investigação do caso. “Assim que sejam conhecidos os resultados das análises forenses às provas e indícios recolhidos no local, o ICNF tomará, no âmbito das suas competências, as providências que venham a revelar-se necessárias”, afirma o ICNF em comunicado.

Suspeitas de envenenamento

Embora não seja formalmente adiantada uma causa para o sucedido, o elevado número de aves mortas, numa mesma zona e num curto intervalo de tempo, parece apontar para um caso de envenenamento propositado.

A confirmar-se, este não seria o primeiro caso de mortalidade de milhafres-reais em eventos suspeitos ou confirmados de envenenamento. Segundo dados da GNR, publicados num relatório do projeto LIFE Aegypius Return em 2024, pelo menos 21 milhafres-reais morreram em 19 casos analisados entre 01/01/2021 e 30/06/2024, dos quais três indivíduos (de três casos diferentes) foram definitivamente envenenados, nomeadamente com estricnina e carbofurano.

O recente caso de Leomil aparenta ser o caso mais grave alguma vez registado em Portugal, no que respeita ao número de milhafres-reais mortos. Torna-se ainda mais grave por se tratar de uma espécie em vias de extinção, protegida, cuja população reprodutora em Portugal detém o estatuto de ameaça “Criticamente em Perigo”, e a população invernante “Pouco Preocupante”.

O envenenamento é uma das principais ameaças à conservação da biodiversidade, e tem impactos severos, principalmente sobre espécies já em risco, como o milhafre-real, ou o abutre-preto (Aegypius monachus), mas também aporta riscos sobre animais domésticos e pessoas. O uso ilegal de venenos, apesar de constituir um crime punível com pena de prisão, continua a ser uma prática relativamente comum em Portugal e no mundo. Uma investigação criminal adequada é fundamental para que se apurem os factos e se identifiquem eventuais suspeitos, que deverão ser levados a tribunal para que a sensação de impunidade vigente acabe de uma vez por todas.

Uma espécie inofensiva, ameaçada de extinção

O milhafre-real é uma ave de rapina maioritariamente carnívora e oportunista, cujos hábitos incluem também a necrofagia – o que a torna vulnerável ao envenenamento, pelo consumo de iscos ou animais contaminados. Entre 2021 e 2024, o milhafre-real representou 34% dos animais selvagens mortos em casos suspeitos (ou confirmados) de envenenamento. O envenenamento, a perda e alteração de habitat, e também a mortalidade em linhas elétricas constituem os principais fatores de mortalidade que contribuiram para o declínio da espécie em Portugal, sobretudo como espécie nifidicante.

Em Portugal, as populações de milhafre-real apresentam dois tipos de dinâmica. Existem grupos invernantes, oriundos do centro e norte da Europa, que se concentram geralmente em dormitórios com grande expressão, por exemplo, no interior do Alentejo, Beiras e Trás-os-Montes. A Península Ibérica desempenha, assim, um papel muito importante na conservação das populações europeias, sendo que um evento nefasto aqui pode ter consequências graves à escala continental.

A população reprodutora é muito reduzida e concentra-se principalmente nas paisagens abertas ou em mosaico do interior raiano. As maiores densidades encontram-se no Planalto Mirandês, onde tem sido alvo de muitos esforços de conservação por parte de entidades como a Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural e o ICNF, e também de ações de vigilância reforçada por parte da GNR.

Outros parceiros do projeto LIFE Aegypius Return, como a Liga para a Protecção da Natureza (LPN) , a Faia Brava e a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) têm igualmente dedicado esforços de conservação para a recuperação da espécie, tendo também organizado regularmente os censos de inverno da espécie.


Milhafre-real (Milvus milvus). Fotografia Paulo Monteiro/SPEA.


Repúdio coletivo


Os parceiros LIFE Aegypius Return manifestam o seu total repúdio por qualquer tipo de crime ambiental, e a sua disponibilidade para auxiliar as autoridades no apuramento dos factos e no combate ao crime contra a vida selvagem, através da cooperação e da dinamização de ações de capacitação como a WildLIFE Crime Academy. Em relação ao caso de Leomil, a SPEA está também disponível para se constituir como assistente do processo.

Sobre o projeto
 
O projeto LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia. O seu sucesso depende do envolvimento de todos os stakeholders relevantes e da colaboração dos parceiros: a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Faia Brava - Associação de Conservação da Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade.